Mudar a rotina, responder repetidamente às mesmas perguntas, falar pela criança ou permitir que ela evite uma situação pode trazer alívio imediato. O problema aparece quando esse alívio passa a ser necessário para que ela consiga funcionar.

Na psicologia, chamamos esse padrão de acomodação familiar: mudanças que os familiares fazem para reduzir ou evitar o sofrimento ligado à ansiedade. Elas são compreensíveis e geralmente nascem do cuidado, não de negligência ou falta de limites.

Como o ciclo se forma

A criança sente ansiedade e evita uma situação. O adulto modifica a rotina ou assume a tarefa. A ansiedade diminui rapidamente, e todos respiram aliviados. Esse alívio reforça tanto a evitação da criança quanto a intervenção do adulto.

Com o tempo, a criança pode concluir que só ficou segura porque evitou a situação ou porque alguém a protegeu. Assim, ela tem menos oportunidades de aprender que consegue tolerar a ansiedade e que a emoção diminui mesmo sem fuga.

Exemplos comuns de acomodaçãoDormir com a criança por medo, responder muitas vezes se algo ruim acontecerá, pedir que outra pessoa fale por ela, permitir faltas frequentes em dias difíceis ou organizar toda a família para evitar gatilhos.

Nem toda ajuda é acomodação

Uma adaptação pode ser necessária, especialmente diante de limitações reais, condições do desenvolvimento, situações traumáticas ou intensidade clínica elevada. O que diferencia apoio de acomodação não é um comportamento isolado, mas sua função, frequência e efeito.

Algumas perguntas ajudam nessa análise:

O que as pesquisas mostram

Estudos associam níveis mais altos de acomodação familiar a maior interferência da ansiedade na vida da criança e da família. O programa SPACE, uma intervenção dirigida aos pais, trabalha justamente a redução gradual das acomodações junto com respostas mais apoiadoras. Em um ensaio clínico randomizado, o tratamento parental apresentou resultados não inferiores à TCC individual para ansiedade infantil.

Isso não significa que toda família deva retirar acomodações sozinha ou de uma vez. Mudanças abruptas, sem preparação e sem considerar o quadro da criança, podem aumentar conflitos e sofrimento.

Como começar de forma cuidadosa

  1. Mapeie: identifique uma acomodação específica e quando ela acontece.
  2. Comunique apoio: “Eu sei que isso é difícil e acredito que você consegue aprender a lidar”.
  3. Escolha uma mudança possível: reduza um comportamento por vez, de forma previsível.
  4. Espere desconforto: o aumento inicial da ansiedade não significa necessariamente que a mudança esteja errada.
  5. Acompanhe o efeito: observe autonomia, intensidade das crises e participação na rotina.

Quando buscar orientação profissional

Vale procurar ajuda quando a ansiedade interfere na escola, no sono, na convivência ou nas atividades próprias da idade; quando a família se sente refém das crises; ou quando não está claro quais apoios são necessários e quais mantêm a evitação.

A orientação parental clínica permite compreender a função do comportamento, o perfil da criança e a dinâmica familiar antes de propor mudanças. O objetivo não é retirar acolhimento, mas substituir a proteção que aprisiona por um apoio que desenvolve capacidade.

Referências

  1. Lebowitz ER et al. Parent-Based Treatment as Efficacious as Cognitive-Behavioral Therapy for Childhood Anxiety. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry, 2020.
  2. Thompson-Hollands J et al. Parental accommodation of child anxiety and related symptoms. 2014.
  3. Etkin RG et al. The Role of Family Accommodation in Youth Anxiety Treatment Outcomes. 2021.